O mundo ainda não se chamava Anharë quando a primeira ferida foi aberta.
Ninguém se lembrava exatamente de quando o mundo começou a sangrar.
Os registros falavam de guerras, tratados quebrados, reis que desejavam mais do que lhes cabia. As canções, porém, contavam outra coisa. Falavam de um tempo em que a terra respondia às mãos humanas, em que o vento carregava preces e a cura brotava do solo como um gesto natural.
Antes do Nome.
Assim chamavam o tempo anterior à ruptura, quando a magia não era dom nem arma, apenas parte da vida.
Havia um povo que vivia assim.
Não construíam grandes muralhas, nem coroas de ouro. Suas casas seguiam o contorno da floresta, e seus rituais acompanhavam o ritmo da lua e das chuvas. Eles não diziam possuir poder algum — diziam apenas escutar.
No centro de suas terras existia uma Fonte.
Não era um poço, nem um templo. Era um lugar onde a terra parecia respirar. Ali, feridas fechavam, sementes vingavam, e o desespero encontrava silêncio. Diziam que uma Deusa antiga observava aquele povo através da Fonte — não como senhora, mas como guardiã.
E foi ali que um homem chegou.
Ele vinha de longe, carregando nos ombros o peso de um reino erguido sobre promessas vazias. Servia a um rei cujo nome se perdeu entre os séculos, lembrado apenas por sua fome. O homem não veio como invasor. Veio como mensageiro. Como ponte.
Ele aprendeu a viver entre aquele povo. Aprendeu seus costumes, suas pausas, sua forma de olhar o mundo. E, entre eles, encontrou uma mulher.
Ela não falava de poder. Falava da terra, das estações, da escuta. Com ela, o homem acreditou — pela primeira vez — que talvez houvesse outro caminho além da obediência.
Quando o filho nasceu, o mundo pareceu correto.
Mas os reis não esquecem.
Sob o disfarce de acordos e palavras de paz, a ganância atravessou fronteiras. O homem foi chamado para longe. Quando retornou, encontrou fumaça onde havia canto. Silêncio onde havia vida.
A Fonte havia sido tocada.
Não drenada. Não destruída.