POV: Elion Thariel
Elion aprendeu cedo que silêncio não significa ausência de som.
Na igreja, o silêncio era pesado. Denso. Cheio de coisas que não se diziam. Ele se acumulava nos cantos altos do teto, entre os vitrais que filtravam a luz em cores frias, e descia lentamente até o chão de pedra, onde os passos ecoavam mais do que deveriam.
Elion caminhava com cuidado para não fazer barulho.
As velas já estavam acesas quando ele entrou no salão lateral. O cheiro de cera quente misturava-se ao de incenso antigo, impregnado nas paredes como uma lembrança que ninguém queria remover. As fileiras de bancos estavam vazias — cedo demais para orações públicas, tarde demais para que ele estivesse ali sem motivo.
Mas Elion sempre tinha um motivo.
Sentou-se no último banco, perto da parede, onde podia observar sem ser visto. Gostava daquele lugar. Não porque fosse confortável, mas porque ninguém o notava ali. E ser notado, aprendera, quase sempre vinha acompanhado de expectativas.
Ele fechou os olhos.
O som veio primeiro como um sussurro distante. Um tremor leve no ar, quase imperceptível para qualquer outra pessoa. Elion respirou fundo, tentando ignorar, mas o som cresceu, espalhando-se como ondas suaves dentro de sua cabeça.
A igreja cantava.
Não em palavras. Em memória.
As pedras antigas carregavam ecos de orações passadas, de pedidos desesperados, de promessas feitas em noites longas demais. Elion sentia tudo isso — sentia demais. Cada passo que já fora dado ali, cada joelho que tocara o chão frio, cada lágrima que caíra sem testemunhas.
— Concentre-se.
A voz de Maelion Thariel cortou o ar, firme, mas cansada.
Elion abriu os olhos rápido demais.
O padre estava em pé perto do altar, as mãos escondidas nas mangas longas do manto claro. Seu rosto parecia esculpido em pedra quando estava assim — sério, distante, quase austero. Mas os olhos… os olhos sempre denunciavam algo mais profundo. Algo que Elion ainda não sabia nomear.
— Você se perde fácil — continuou Maelion. — Ouvir não é o mesmo que compreender.
Elion abaixou a cabeça.
— Desculpa.