POV: Kael Valeris
Kael aprendeu cedo a reconhecer o som de um salão cheio.
Não era o riso nem os aplausos — era o eco. Um ruído grave e constante, feito de vozes que não esperavam resposta. O Salão de Mármore estava assim naquela manhã: cheio demais, quente demais, sério demais para alguém que ainda precisava subir na ponta dos pés para alcançar a mesa principal.
— Endireite a postura, alteza.
A mão pousou firme em seu ombro antes mesmo que Kael percebesse que estava curvado. Ele se ajeitou por reflexo, sentindo o peso da pequena coroa escorregar um pouco pela testa. Não gostava dela. Coçava. Apertava. E fazia com que todos olhassem como se ele fosse algo que precisava ser observado o tempo todo.
Kael não queria ser observado. Queria desaparecer.
Os discursos começaram — palavras longas, cheias de promessas que ele não entendia e não tinha feito. Algo sobre colheitas, algo sobre monstros nas fronteiras, algo sobre honra. Sempre honra. Kael tentou acompanhar, mas seus olhos encontraram o alto das colunas, depois o teto abobadado, depois uma das janelas altas que deixavam a luz entrar em feixes oblíquos.
Ela estava aberta.
Ninguém percebeu quando Kael escorregou para fora da fila.
Era pequeno demais para causar impacto. Pequeno demais para interromper reis e conselheiros. Ele se moveu com a prática de quem já tinha feito aquilo outras vezes, passando por trás de tapeçarias e colunas, evitando os olhares atentos dos guardas.
O castelo tinha passagens que só crianças e ratos conheciam.
Kael subiu as escadas de serviço duas a duas, o coração batendo rápido não de medo, mas de antecipação. Cada degrau afastava o som do salão, até que as vozes viraram apenas um murmúrio distante, como o mar batendo contra pedras muito longe dali.
No corredor da ala antiga, o ar era mais frio. O cheiro de pedra úmida misturava-se ao de madeira envelhecida. Era ali que os criados diziam que o castelo respirava — longe das áreas reformadas, longe das paredes polidas para impressionar visitas.
Kael empurrou a janela mais alta.
Ela rangeu, como sempre, mas cedeu. O vento entrou de uma vez, bagunçando seus cabelos escuros e fazendo a capa curta que insistiam em colocá-lo usar bater contra suas pernas. Ele subiu no parapeito com cuidado treinado, sentando-se com as costas encostadas na pedra fria.
Lá embaixo, o mundo parecia outro.
As pessoas eram pequenas. Os problemas, distantes. O céu, enorme.
Kael deixou as pernas balançarem no vazio, sentindo o frio subir pelos pés. Era ali que ele vinha pensar. Ou melhor — era ali que ele vinha não pensar.
— Você vai cair.